Crise de identidade - "Primum non nocere"
| Artigo de opinião |
"Primum non nocere"... Tenho reflectido neste princípio ético, o primeiro, antes da beneficiência, não maleficiência, desde que debati sobre isto com o meu colega do podcast (1).
Porque é que o primeiro princípio enquanto profissional de saúde é "não fazer o mal"?
E porque é que o fazer o "bem" é diferente de fazer "mal"?
Assumindo que não sou certamente a melhor pessoa para reflectir sobre isto, permitam-me opiniar um pouco sobre isto...
Tentando ultrapassar as limitações que esta falsa dicotomia acarreta, fazer mal e bem, podemos deduzir que um dos objectivo de Hipócrates era, antes de pensar o que poderá fazer bem ao paciente, ter o cuidado de evitar fazer-lhe mal.
No fundo, assumir que por vezes as nossas acções, ainda que bem intencionadas, podem ter maus resultados (implicações iatrogénicas). É um bom aviso, parece-me.
Correndo o risco de me tornar um pouco repetitiva, vou resumir uma reflexão, pegando em pedacinhos de outras reflexões passadas... (Crónicas "não sei", "certeza do erro", "vulnerabilidade")
Partindo do pressuposto que a incerteza é algo que faz parte da prática clínica, e até o mais frequente se formos bem sincer@s, e que o que comunicamos está incluído na nossa intervenção, não saber bem o que dizer às vezes é normal.
A reflexão que vos coloco é: o que dizer quando não sabem o que dizer?
Noutra crónica anterior já dei algumas sugestões ("não sei"), mas nesta crónica quero ir mais longe: resistir à desinformação.
Será que temos a obrigação de resistir à desinformação?
Baixa literacia em saúde parece estar associada a más decisões em saúde.
Numa época em que a desinformação compete com a informação, quanto maior o nível de desinformação das pessoas, é plausível que esta desinformação contribua para uma baixa literacia em saúde, e consequentemente más decisões em saúde.
Se, enquanto profissionais de saúde, temos como primeiro princípio ético primum non nocere, talvez resistir (Herbert Marcuse) à desinformação esteja incluído, tendo em consideração os riscos que a desinformação acarreta.
Por isso, resistam...
Resistam à desinformação.
Resistam à ilusão de achar que a certeza é uma possibilidade, num mundo de incertezas.
Resistam.
Por vocês, e pelos pacientes.
Primum non nocere.
(Quando a não desinformação é uma responsabilidade ética.)
(1) João Santos Neto, Ft.
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