Crise de identidade - Lidar com a certeza do erro
| Artigo de Opinião |
Já tinha referido numa crónica anterior a questão do aceitar a incerteza do “não sei”. Hoje queria falar mais do erro. “Errar é humano.” Não errar é... estranho. Eu até diria que é quase psicopata... Brincadeira. Mas a verdade é que na nossa condição humana está tão vincada a problemática de repudiar o erro. E faz sentido, até certo ponto: errar pouco depende da nossa sobrevivência, o que não faz tanto sentido é penalizarmo-nos tanto pelo erro.
Porque acertar é quase irrealista. E a experiência (memórias prévias) já nos disse isso, desde pequenos, em que “acertar” é tão pontual, e mesmo assim nem sempre sabemos bem se acertamos ou achamos que acertamos (a não ser a preencher uma equação matemática).
Neste ponto queria vos recomendar um vídeo sobre vergonha (e culpa e vulnerabilidade), de Brené Brown.
Então, se errar é o mais garantido, pelo menos tão mais garantido do que acertar, o que fazer com esta condição?
Tentar errar menos. E olhem que já é uma luta bem difícil!
O que é que implica “tentar errar menos”?
1) Podemos começar por não repetir erros do passado, não apenas os nossos erros, mas também da nossa comunidade: prática informada pela evidência (não basta ser somente pela experiência clínica, não chega). Se alguém já chegou à conclusão fundamentada que aquela abordagem não resulta ou não acrescenta nada, valerá a pena insistir? Será ético, sequer?
2) Por outro lado, quando não temos mais informação, penso que o melhor é mesmo debater as hipóteses com a pessoa que está à nossa frente, o nosso paciente. Ele não só tem esse direito, mas também deve partilhar essa responsabilidade (modelo biopsicossocial, vontades e crenças do paciente, prática centrada no paciente).
3) E finalmente, um certo leap of faith, que vai preenchendo a nossa experiência clínica. Isto é o mais complicado de explicar, e requer muita bagagem ética a acompanhar.
Implica compreender que tudo tem um certo risco, porque o erro é o mais certo, tal como a incerteza. Temos é de compreender se estamos confortáveis a assumir determinados riscos potenciais. Ou não.
Qual o erro mais confortável para vocês? Qual o risco máximo que assumem?
Eu confesso que simpatizo com a sinceridade.
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