Crise de identidade - Correr atrás do prejuízo...
| Artigo de Opinião |
No seguimento das anteriores crónicas “não sei” e “lidar com a certeza do erro”, queria hoje vos apresentar uma das minhas lutas internas, na esperança que a minha reflexão de alguma forma vos ajude.
Correr
atrás do prejuízo... É como me sinto a toda a hora. A urgência em
procurar soluções, ou orientações, ou até somente pistas, para ajudar os
nossos pacientes, obriga de alguma forma a nos mantermos actualizados,
dentro do possível. Mas, como uma amiga minha me apresentou
recentemente, a tradução do conhecimento para o contexto de prática demora anos.... 17 anos (1).
Os nossos pacientes não podem esperar tanto tempo! Claro que não.
1) Por isso é que a prática informada pela evidência tem de alguma forma advir de alguma iniciativa individual... Tem de ser.
Contudo,
a responsabilidade de nos mantermos actualizados não é somente nossa,
contrariamente ao que nos fazem acreditar na faculdade. Não é. Por mais
interesse que tenhamos numa área, e espírito aberto para a crítica, se não temos acesso sequer à informação x, vamos ter sequer noção que x existe?
Muitas vezes não... Se não tenho tempo e/ou dinheiro para aceder a
algo, não esperem que consiga o mesmo que alguém que tem mais do que eu
abundantemente (falácias associadas à meritocracia).
2) Preservem o sentido crítico: se alguém tem uma explicação maravilhosa para
algo, mas as permissas já foram questionadas (e há sempre colegas que
podem nos ajudar a ter noção disso, é só estar aberto ao debate com
eles, e não ter medo de questionar as próprias crenças), partam mais do
seguinte pressuposto: o mais provável, na explicação maravilhosa, é a pessoa que a fez não perceber nada do assunto.
Estatisticamente
falando, vão acertar mais nesta possibilidade do que no oposto. Lamento
se isso arruina de alguma forma a explicação maravilhosa... Mas, pensem:
querem se ludibriar e aos vossos pacientes?
Confesso que este é o tópico que me irrita mais solenemente: quando alguém, não só não tem noção desta problemática, como também perverte essa noção em relação aos outros, minimizando a importância da prática informada pela evidência... O que me leva ao 3º tópico:
3) Já falei noutra crónica anterior (“crenças intoleráveis”) em relação a isto: não podemos compactuar com determinadas práticas... Se não têm coragem de criticar abertamente, muitas vezes eu própria não tenho, pelo menos não validem (“até que pronto posso criticar”).
4)
Por fim... É muito desconfortável não saber o que dizer muitas vezes
aos pacientes. É verdade. Mas lembrem-se: a maior responsabilidade está
do nosso lado, na relação profissional de saúde-paciente, e como tal
temos responsabilidade éticas associadas. Não sabem o que dizer, não digam nada ("não sei"). Só não desistam nunca de continuar a procurar soluções. Os nossos pacientes merecem isso.
Correr atrás do prejuízo...
Se calhar estamos sempre e não temos outra alternativa... Mas pelo caminho sempre vamos ajudando pessoas, com consciência, e com um sorriso na cara.
Referências:
1) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22179294, partilha de Monserrat Conde, Ft.
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