Crise de identidade - A batalha da vulnerabilidade (lidar com a certeza do erro - parte 2)
| Ensaio |
E voltamos às nossas crises de identidade. Hoje gostaria especialmente de reflectir convosco sobre um dilema profissional: como é tão horrível sentirmo-nos vulneráveis, mas é precisamente nesse ponto de desconforto que podemos tornar a nossa prática clínica mais humana e honesta junto do paciente.
A vulnerabilidade apesar de ser descrita em filosofia e bioética como uma parte inerente de se ser humano, enquanto conceito existencial, tanto os pacientes como os profissionais de saúde procuram fugir dela (Gulbrandsen, 2018), e a própria definição de vulnerabilidade, segundo a European Commission on Basic Ethical Principles in Bioethics and Biolaw, fala do ser vulnerável como alguém “cuja autonomia, dignidade ou integridade são capazes de ser ameaçadas” (excerto retirado de Gulbrandsen (2018)).
A vulnerabilidade apesar de ser descrita em filosofia e bioética como uma parte inerente de se ser humano, enquanto conceito existencial, tanto os pacientes como os profissionais de saúde procuram fugir dela (Gulbrandsen, 2018), e a própria definição de vulnerabilidade, segundo a European Commission on Basic Ethical Principles in Bioethics and Biolaw, fala do ser vulnerável como alguém “cuja autonomia, dignidade ou integridade são capazes de ser ameaçadas” (excerto retirado de Gulbrandsen (2018)).
Na crónica anterior ("lidar com a certeza do erro"), até aconselhei a visualização de um vídeo de Brené Brown, que recorda que não é necessariamente algo negativo, aceitarmos ser vulneráveis junto das pessoas que nos rodeia, mesmo que isso implique desconforto (muito desconforto). Tornamo-nos antes mais verdadeiros, mais pessoas.
Nos pacientes a vulnerabilidade é mais óbvia, pela sua posição de desigualdade de poder. Em nós, profissionais de saúde, eu localizo essa vulnerabilidade especialmente quando temos de assumir os limites do nosso próprio conhecimento. Se não o fazemos, deveríamos ponderar em começar a fazê-lo, por uma questão de honestidade intelectual, diria eu...
Estes limites do nosso conhecimento, e de todo o conhecimento na verdade, aproximam-se de novo da questão da incerteza: apesar de existir consciência da presença de incerteza (Schwab, 2012), a recusa dessa incerteza encontra-se de tal forma enraizada, que após um extensa avaliação de sinais, sintomas e testes assume-se chegar a uma solução.
Nos pacientes a vulnerabilidade é mais óbvia, pela sua posição de desigualdade de poder. Em nós, profissionais de saúde, eu localizo essa vulnerabilidade especialmente quando temos de assumir os limites do nosso próprio conhecimento. Se não o fazemos, deveríamos ponderar em começar a fazê-lo, por uma questão de honestidade intelectual, diria eu...
Estes limites do nosso conhecimento, e de todo o conhecimento na verdade, aproximam-se de novo da questão da incerteza: apesar de existir consciência da presença de incerteza (Schwab, 2012), a recusa dessa incerteza encontra-se de tal forma enraizada, que após um extensa avaliação de sinais, sintomas e testes assume-se chegar a uma solução.
A evolução da tecnologia associada aos meios de diagnóstico, a cultura da “estrutura, eficiência, e predictabilidade”, a transformação da narrativa “cinzenta” do paciente em tons de “branco e preto” para facilmente categorizar e atribuir rótulos, os protocolos e “chek-lists”; tudo isto traduz uma obsessão por encontrar a “resposta certa”, mesmo que para isso se recorra a viés, porque aceitar a incerteza pode acarretar uma certa vulnerabilidade, à qual procuramos fugir (Simpkin & Schwartzstein, 2016).
Talvez fosse importante recordar que a “medicina é uma ciência incerta e uma arte de probabilidade” (Simpkin & Schwartzstein (2016) citando Osler), e que ironicamente a incerteza é a única certeza que existe, sendo a certeza uma ilusão (Simpkin & Schwartzstein, 2016).
Confesso que me recordei da questão da vulnerabilidade por ter assistido recentemente e em primeira mão à demonstração de vulnerabilidade de colegas, a pedirem-me sugestões e ideias para casos complexos; e, como sempre, por parte de pacientes, que regularmente fazerem isso comigo.
Não acham que isso demonstra uma tremenda coragem? Eu acho. E confesso que fico sempre emocionada quando, seja quem for, aceita demonstrar essa vulnerabilidade junto de mim (crónica "a coragem do paciente").
Por isso, hoje a minha reflexão irá neste sentido: se há pacientes que aceitam ser verdadeiros abertos, francos e vulneráveis connosco, porque não o fazemos também nós, por eles? Os pacientes não merecem isso? Não deveriamos começar a aceitar a vulnerabilidade inerente à incerteza da nossa prática?
Eu aceito.
Aceito a incerteza da minha prática.
Aceito aumentar a minha vulnerabilidade assumindo os meus limites, sendo mais franca e honesta com o paciente (e comigo mesma), sendo mais humana, especialmente se isso facilitar o paciente sentir-se menos desconfortável na minha presença (empatia).
E vocês?
Por uma prática clínica mais humana e honesta junto do paciente.
Artigo Simpkin & Schwartzstein, 2016, partilhado por colega Pedro Barbosa, Ft.
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