Crise de identidade - Vergonha
| Artigo de opinião |
Vergonha.
Que vergonha...
Tenho pensado um bocado nisto. Depois de lançar alguns episódios do Podcast (é a primeira vez que estou a fazer referência a ele nos meus textos, yupi), tenho pensado muito na aprendizagem transformativa de Mezirow, que é um dos pilares base do mesmo.
Como é que a vergonha, pode ser útil?
Brené Brown tem uma perspectiva muito interessante sobre a mesma (1) (irei assumir aqui vergonha e culpa mais como sinónimos, por uma questão de facilitismo a comunicar). E Mezirow usa-a, juntamente com outras sensações negativas, como motor para a nossa própria aprendizagem (2).
No momento imediato em que sentimos vergonha/culpa, eu sei quanto ela pode ser paralisante... Às vezes acontece quando dizemos umas asneiras à frente do paciente e nos damos conta demasiado tarde, ou fazemos julgamentos errados a dado momento, outras vezes é o próprio paciente a nos fazer um apontamento sobre algo... Ou até através dos nossos pares, colegas de profissão ou outros profissionais de saúde...
Aquele horrível momento em que só nos apetece meter dentro de um buraco!
É terrível, verdade, mas também não é o fim do mundo. Ao longo de toda a nossa infância até à idade adulta já passamos por isso, e vamos continuar a passar. Faz parte. Sobrevivemos e vamos continuar a sobreviver a ela.
Já pensaram o que seria se não sentissemos vergonha/culpa?
Li recentemente uma passagem de um livro em que a personagem principal fica completamente mortificada pela vergonha/culpa de ter feito um julgamento muito errado acerca de outra personagem. Como a escritória não é comedida nem nas palavras nem nas emoções, ela descreve de forma muito minuciosa a situação. (Visto que não sou a pessoa adequada a fazer uma análise literária, só posso dizer que adorei, e sensibilizou-me para o assunto). (3)
Posso vos dizer que em relação aos pacientes, especialmente a eles, acho que temos a obrigação ética de analisar se o que ele nos disse tem algum fundamento. E se sim, é quase "comer e calar". (Faço a mesma leitura em relação aos pares, mas aceito que discordem um pouco mais.)
Somos crescidos os suficiente para saber quando pedir desculpas e mudar o nosso comportamento. Podemos eventualmente incluir um apontamento de humor e rir do assunto para aligeirar o peso, mas sem menosprezar a critica do paciente. Acho que ele merece isso (mesmo que envolva vulnerabilidade da nossa parte).
Confesso que talvez saber rir um pouco de nós mesmo seja um bom ajudante... Talvez...
Quantas vezes já me aconteceu... Mas, pelo menos até agora, não me arrependo de aceitar os meus erros, pedir desculpas quando estes poderiam servir o propósito, e tentar mudar, evoluir.
(Pedir desculpas só para dar um bálsamo ao nosso Ego, na crença de que somos boas pessoas (fundamentos na moral), talvez não seja bem o objectivo desta reflexão...)
Onde acham que surge muitas das ideias destes textos ou até dos episódios do Podcast? Acham que não é do fruto das asneiras que fazemos? A mim a carapuça serve-me na perfeição, posso vos garantir.
E vou à minha última confissão: confesso que faço um forte apelo à vergonha de todos nós nos episódios do Podcast... As minhas antecipadas desculpas.
Mas, e recorrendo a uma expressão bem portuguesa, se não tivermos alguma "vergonha na cara", arriscamo-nos a assumir que o que fazemos está bom, quando podemos estar bem longe da realidade... Ou nem querermos saber como está...
Se sentimos vergonha, é um sinal de que nos importamos, não acham?
No fundo, acho que os nossos pacientes merecem esse desconforto da nossa parte...
Eu aceito esse risco de desconforto, e vocês?
Referências:
(1) https://www.youtube.com/watch?v=psN1DORYYV0
(2) https://www.learning-theories.com/transformative-learning-theory-mezirow.html (exemplo, existem mais referências do trabalho dele)
(3) Jane Austen, Orgulho e Preconceito
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