Uma questão de sensibilidade - O monstro do desespero ("ser empático é uma... merda" - parte 2)
| Artigo de Opinião |
No seguimento da já velhinha crónica “lutar contra uma parede” e da crónica anterior, com o mesmo nome, hoje gostaria de vos sensibilizar para alguns monstros que vejo no dia-a-dia dos meus pacientes. (Se quiserem saber porque fui politicamente incorrecta na crónica anterior, dêem uma vista de olhos antes.)
Hoje vi o monstro da fadiga de frente... É tão assustador... É gigante, esmagador... Envolve a pessoa num abraço tão indesejável. E custa. Custa vê-lo, em toda a sua dimensão e não poder fazer nada naquele preciso momento pelo paciente.
Custa ver o desespero nos seus olhos, o cansaço, o querer colaborar e não conseguir, de achar que está a falhar para comigo, para com a família, porque não consegue fazer o que lhe peço.
“Não peça desculpas”. Digo, vezes sem conta.
“Está a fazer muito bem, continue, continue, não desista”. Não desista... Sinto às vezes que é quase uma falta de respeito... Com o que a pessoa está a sentir e estou eu a chateá-la... E se fosse eu? Não gostaria que me deixassem em paz?
E cria-se um certo dilema: a pessoa precisa daquilo, mas ao mesmo tempo quem sou eu para lhe pedir seja o que for...
(Nota: é indispensável medir sempre os prós e contra de qualquer intervenção, seja qual for).
Se eu pudesse só tirar um bocadinho dessa fadiga, dor, falta de ar... o que for, e reduzir esse desespero, mesmo que fosse só um bocadinho... Levantar as garras do monstro de cima da pessoa... só uma garra, que seja.
Porque é que vos estou a falar disto?
1) É por compreender um pouco o que implica o monstro estar presente, que eu vos peço: não recriminem a pessoa por querer desistir. Ela tem todo o direito. O nosso papel pode ser mais mostrar-lhe as vantagens de não desistir e motivá-la! (Não de forma paternalista, associado a um modelo biomédico, antes enquanto parceir@ de equipa de trabalho com ela: prática centrada no paciente).
2) Ponderem bem na intervenção, prós e contras, antes de passar à solicitação do que for, e debatam isso com o paciente. E ouçam o paciente quando ele vos diz que quer parar. Tentem perceber o porquê, antes de negarem essa possibilidade. (Prática informada pela evidência e centrada no paciente.)
3) Dêem espaço para a pessoa manifestar algum desespero. Eu tenho pacientes "super-heróis"... (crónica) Verdade. Que na presença da família controlam-se tanto, mas tanto, para não preocupar ninguém. Mas essa capa de super-herói por vezes é tão pesada... E às vezes escorrega, o que acarreta ainda mais sofrimento (vergonha, medo, insegurança). Por isso sugiro: permitam que a pessoa que está à vossa frente quebre, que retire por momentos essa capa.
Depois de uns momentos, podemos usar e abusar de "sentido de humor" e ser bem "teimosos" (crónicas)! Mas damos espaço.
Custa ver o monstro do desespero de frente, não é?
Mas antes de nos acovardamos, e usarmos o escudo ilusório da certeza, de que nós é que temos razão em pedir aquilo ao paciente, rejeitando a vulnerabilidade que isso nos trás (crónicas "certeza do erro" e "vulnerabilidade"), lembrem-se: vocês só vêem o monstro por uns momentos, o paciente fica com ele o resto do dia...
Por uma questão de sensibilidade...
P.S. Ilustração de: http://cargocollective.com/luisabigode?fbclid=IwAR1rANfYkOhVDyJHK1Wa3dv6cHJhJe5sEK1q2rTS3tkHzKFXKajY-g0Y0E4
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