Filosofia aplicada - Os limites da linguagem e a “conversa dos malucos”

| Artigo de Opinião |

Tenho verificado com alguma regularidade que nas discussões com pacientes, entre pares, entre profissionais de saúde, nos meios de comunicação social, etc, usamos as mesmas palavras mas atribuímos-lhes significados diferentes. O que resulta numa “conversa de malucos” muitas vezes... Falamos e falamos, mas ninguém se entende. Porque é que isto acontece? E quais as implicações disto?

Bem, visto que eu não tenho nenhuma formação em Linguística irei somente me reportar ao pouco que sei, dentro do domínio da Filosofia da linguagem.

1) No campo desta última temos muito a agradecer ao filósofo Ludwig Wittgnestein, que experimentou utilizar as regras da linguagem matemática para a nossa linguagem corrente. O que permitiu, na minha leitura, uma aplicação mais honesta da nossa linguagem, mais lógica e potencialmente menos “incorrecta”.

2) Um outro filósofo que penso que contribuiu de forma considerável foi Jacques Derrida, que procurou desconstruir as palavras, através da compreensão da evolução das palavras (raiz) e seus significados
(Desconstrução).

Portanto, só pegando nestas duas contribuições, 1) sabendo articular melhor as ideias, ou seja, de forma mais lógica, e, 2) escolhendo de forma mais apropriada as palavras, compreendendo melhor o “peso” de cada palavra, temos os melhores ingredientes para comunicar melhor. Certo? Teoricamente, sim... Na prática, nem por isso.

Porque é que isso nem sempre se verifica?

Existem muitas justificações, mas pegando simplesmente na nossa aprendizagem linguística, que envolve características inaptas, memória e socialização desde a infância até ao dia de hoje, a atribuição de significados a cada palavra torna-se demasiado heterogénea entre as pessoas, mesmo que partilhem uma identidade de grupo comum (nacionalidade, área profissional, profissão).

Quais as implicações disto?
 
1) Acho que é simples deduzir essa parte: ninguém se entende.

2) As implicações tornam-se mais nefastas quando quem paga a factura desse desentendimento são os nossos pacientes...
Especialmente nefastas se ouvem coisas diferentes, muitas vezes contrárias, pela boca de vários profissionais de saúde, facilmente gerando um nível de stress e ansiedade nos pacientes.

E aqui a problemática começa a adquirir alguns contornos éticos:
  • Como é que não temos uma liguagem comum?
  • Como é que toleramos, de nós mesmos e dos outros, falta de rigor na comunicação com os pacientes?
Bem, mas como podemos contrariar isso?

1) Talvez começando pela educação, literacia em saúde, e mais diálogo lógico entre todos os profissionais de saúde.

2) Em relação aos nossos pacientes, pegando nas ideias de duas crónicas anteriores, visto que é normal "não se saber" tudo, é humano, isso não justifica falar sem consciência, sob o risco de pôr em causa o bem-estar do paciente (stress, ansiedade, alimentação de mitos e crenças, nocebos), por isso: quando não se sabe, mais vale "não dizer nada".
Isto também pode ser considerada uma questão de responsabilidade da nossa parte (outra crónica).

3) Em relação às discussões entre pares, proponho as seguintes ideias, para um diálogo mais rico e mais honesto:
  • Utilizar mais lógica e menos falácias no diálogo.
  • Verificar se todos os intervenientes utilizam os mesmos conceitos/referenciais.

Como é que querem chegar a conclusões conjuntas, sem verificar isto antes? Ou não estão francamente interessados em dialogar?

Todos temos a ganhar com mais diálogo. Ou acham que não? Se acham que não, lembrem-se de quem perde mais... Não somos nós, são os pacientes.
 

Por uma questão de responsabilidade... E menos “conversas de malucos”.

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