Uma questão de sensibilidade - "Ser empático é uma... merda"
| Ensaio |
Se pensarmos no assunto, de
facto ser empático custa um bocado. Podemos dizer que pagamos uma
factura física-emocional bem real.
Aquele aperto no peito, no estômago, na garganta... Aquela sensação de calor, frio, palmas suadas, arrepio...
Aquela
horrível sensação de choro preso na garganta, que não queremos deitar
cá para fora, porque bem basta o sofrimento da outra pessoa. Ela não tem
de ser obrigada a gerir as nossas lágrimas também...
(Já cheguei a andar durante uns dias com sensações similares ao que pacientes me descreveram. Verdade...)
Aquela
sensação de estarmos a afundar-nos em tristeza. Uma tristeza tão
grande, tão grande, cuja origem não é nossa, mas da pessoa que está a
falar à nossa frente. E por vezes não podemos dizer muita coisa. Só
ficar ali. Só ficar.
É uma merda...
Mas a opção contrária é... bem pior.
Considerando pontualmente que só existem duas possibilidade, ser ou não ser empático, que não é real, é uma falácia de falsa dicotomia que vos apresento, mas peço-vos que considerem somente por uma questão de argumentação:
1) Imaginem-se
no papel de paciente/doente. Imaginem-se a ir ter com um colega
igualmente profissional de saúde. E ao falar com ele descobrem que a
pessoa que está à vossa frente é extremamente empática, não por saber
que são também profissionais de saúde, mas simplesmente é a prática
usual daquela pessoa. E descobrem como é bom...
Mesmo que aquela pessoa
não consiga solucionar logo o problema, faz tudo ao seu alcance para vos
ajudar, e ouve-vos, verdadeiramente. E vocês sentem que não são um
número, uma doença ou condição, são uma pessoa à frente de outra pessoa.
2) Agora imaginemos a situação oposta. Que a pessoa que está à vossa frente é uma perfeita besta (crónica “não sejas uma besta”).
Qual é a melhor opção?
Considerando
agora, de forma justa, que a empatia não é algo dicotómico, que se liga
e desliga como um botão, mas algo que vai aumentando, diminuindo,
aumentando..., à medida que ouvimos as pessoas, e vamos ficando
sensibilizad@s com a sua situação, a sua história, o seu contexto, o que
se passou, as suas frustrações associadas...
Por um lado, o nosso curto sofrimento não é nada, absolutamente NADA, em comparação com o sofrimento da pessoa à nossa frente. NADA.
Por outro, a empatia pode ter algumas características inatas, mas também é algo treinável (alguém
da área de psicologia explicaria isto bem melhor do que eu, e que entra
dentro da dimensão contemporânea da inteligência emocional). Que
requer, portanto, algum treino no nosso dia-a-dia, ou seja... não me
parece muito lógico só se ligar o “botão” quando nos apetece.
Por tudo isto... Por muito que seja uma merda,
que custe, e que nos dê apertos na garganta, a alternativa de não
sermos tão empáticos não é muito melhor, se formos honestos connosco,
com a nossa prática. A evidência científica tem até inclusive apontado no sentido de aumentar a nossa eficácia/eficiência prática.
E para nos tornarmos mesmo bons, como qualquer prática profissional, requer alguma prática. Portanto, toca a praticar.
Porque a fatura que se paga por sermos um pouco mais empáticos, e irmos eventualmente contagiando com a nossa empatia, não é nada em comparação com uma sociedade cheia de bestas.
Por uma questão de sensibilidade...
Referências de interesse:
Empathic Care and Distress: Predictive Brain Markers and Dissociable Brain Systems
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28602689
Listening is therapy: Patient interviewing from a pain science perspective
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27351690
Forma de identificação intelectual ou afectiva de um sujeito com uma pessoa, uma ideia ou uma coisa (ex.: a empatia entre os voluntários e a população local era evidente (...)).
"empatia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/empatia.
Obrigada a todas as pessoas que me recordam diariamente que vale muito a pena continuar a ser empática.
(Texto recuperado de Dezembro 2019)
Comentários
Enviar um comentário