Filosofia aplicada - Ciência constituída arguida!

| Artigo de Opinião |

Vamos falar sobre Ciência. Ao longo de muitos anos a Ciência foi cuidadosa e escrupulosamente avaliada e criticada pela Filosofia, e continua a ser, e... ainda bem.

O ramo da Filosofia que se debruça mais sobre as questões associadas à Ciência, especialmente a investigação científica, chama-se Epistemologia (conhecimento). Mas não é o único, a Ética (análise moral), a Ontologia (do ser) e a Metafísica (da realidade) também. No fundo, existe muita filosofia produzida com base na análise do conhecimento científico, especificamente em relação aos seus limites.

É verdade... A Ciência (conhecimento científico) tem limites. E quem não compreende isto, tem tendência a fazer um de dois julgamentos errados acerca dela:

1) A Ciência responde a tudo! É uma falácia. Parece-me que se enquandra na falácia dicto simpliciter, que significa pegar numa amostragem pequena e generalizar, ou seja, a investigação científica actual encontra-se bastante desenvolvida e já deu muitas provas que permitiu responder a algumas questões (nomeadamente a possibilidade de ler este texto na internet). Contudo, lá por ter dado estas provas, não quer dizer que responda a tudo.

Aliás, para se produzir conhecimento científico, é preciso que haja investigação, e para haver investigação tem de ser possível testar e reproduzir seja qual for a teoria que esteja a ser analisada. E isto implica, ser possível reproduzir o método científico.

2) A Ciência não responde a tudo, logo, não a vou considerar!
Esta é mais difícil... É óbvio que o conhecimento científico não responde a tudo, pelo referido no ponto anterior. Mas é por este motivo que não o utilizamos, de todo?

De novo parece uma falácia de generalização e conclusão precipitada: lá por não responder a tudo, não quer dizer que não responda a alguma coisa, e seja, por isto, considerado inútil.
(Acho que neste âmbito não preciso de a defender, tendo em conta que sem ela nem poderiam ler este texto via virtual, de novo).

Aliás, a simples polarização para o ponto 1) ou 2) é uma falácia: falsa dicotomia. Como se estas fossem as únicas opções possíveis.

Se calhar até era útil se compreender um pouco mais sobre os limites do conhecimento científico, para melhor o compreender.

David Hume apresentou umas das melhores falácias/erros do pensamento humano acerca dos limites da Ciência (ou seja, até hoje ainda não foi refutada), e tem exactamente a ver com as opções levantadas anteriormente, de a Ciência não poder responder a tudo.

O problema do Ser - Dever Ser (Is-Ought to).
Exemplo “Eu sou mulher e tenho um aparelho reprodutor que me permite ser mãe (ser). Como há boas mães, carinhosas, e eu sou mulher, devo ser boa mãe (dever ser)”.
Lá por ser mulher, não quer dizer que tenha alguma obrigatoriedade de ser mãe, muito menos boa mãe.


David Hume apercebeu-se deste erro e aplicando-o à Ciência, produz-se algo do género:
A Ciência diz-no o que é/factos, não o que deve ser/fazer com a informação.

Em resposta disto temos por exemplo a contribuição da Ética. O efeito placebo existe e funciona (facto), por isso vou usá-lo para ajudar os meus pacientes. E acham isto ético?

Há um orador de um podcast de Filosofia que gosto muito que propos o seguinte cenário: Se a Ciência fosse uma pessoa, e vocês lhe fizessem a seguinte questão:
Porque é que não respondes a tudo?
A Ciência diria algo do género:
Tens toda a razão, eu não consigo responder a tudo, mas eu nunca disse que conseguiria, eu só estudo factos, não o que fazer com eles.


Portanto, antes de rejeitarem a Ciência/conhecimento científico, porque não responde a tudo (2), ponderem na incrivel utilidade, lembrando-se sempre que não pode responde a tudo (1), nem deve (problema Ser-Dever Ser).


Antes de julgarem a Ciência, lembrem-se que ela tem limites.

 

(Texto recuperado de Setembro 2019)

Comentários

Mensagens populares