Dignidade - Cuidados Paliativos

| Artigo de Opinião e Informação |

O meu paciente faleceu. Sensação de alívio pelo meu paciente, misturada com vazio. Breve crise existencial. Muita tristeza pelos últimos momentos dele... Por fim, aceitação.

Em situações em que o objectivo dos cuidados de saúde já não é o de reabilitar, será que a Fisioterapia tem um papel a desempenhar
 
O que são Cuidados Paliativos? São cuidados activos, coordenados e globais, prestados por unidades e equipas específicas, em internamento ou no domicílio a doentes em situação de sofrimento decorrente de doença incurável ou grave, em fase avançada e progressiva, assim como às suas famílias, com o principal objetivo de promover o seu bem-estar e a sua qualidade de vida, através da prevenção e alívio do sofrimento físico, psicológico, social e espiritual, com base na identificação precoce e no tratamento rigoroso da dor e outros sintomas físicos, mas também psicossociais e espirituais (Lei 2012, Plano Estratégico para o Desenvolvimento dos Cuidados Paliativos 2017-18, SNS Cuidados Paliativos).

A resposta à primeira pergunta é sim. E o objectivo da intervenção da fisioterapia é:
  • Manter as capacidades que a pessoa adquiriu ao longo do processo de reabilitação (ainda possível);
  • Evitar uma perda demasiado abrupta das suas capacidades;
  • Manter o mais elevado possível o nível qualidade de vida.
 
A título de exemplo, e tendo em consideração a minha experiência na área (que é de nível básico a intermédio), partilho convosco algumas estratégias de intervenção que uso com frequência
 
a) Educação na gestão dos sintomas
Se estiverem associados períodos de dor/fadiga/falta de ar e presença de secreções ou outros sintomas, estudam-se com o paciente:
  • As melhores formas de gerir o dia, de acordo com o aparecimento dos sintomas (e.g., maior nível de actividade de manhã, agrupar o máximo de obrigações pessoais nesse período, etc);
  •  As melhores estratégias para gerir os próprios sintomas (e.g., estratégias não-farmacológicas para alívio da dor, redução das secreções, etc.)
 
b) Educação para realizar adaptações no domicílio
Reduzir barreiras arquitectónicas, quando possível, ou treinar estratégias para contornar de forma mais rápida e segura as mesmas barreiras.
 
c) Exercício físico
Já não com o objectivo de reabilitar, mas sim para:
  • Ajudar na gestão dos sintomas (e.g., dor, fadiga, dormência, perturbação do sono, etc);
  •  Evitar perda das capacidades motoras ("mantê-las");
  •  Usufruir dos benefícios fisiológicos do exercício geral, com bem-estar do corpo-mente.


Preferencialmente a nossa intervenção deveria estar integrada numa equipa multidisciplinar, em colaboração com outros profissionais de saúde, como médicos, enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais, e muito importante, assistentes sociais... Informe-se junto de um profissional de saúde para poder ser reencaminhado adequadamente.

Dignidade
A ideia da dignidade humana remonta para há muitos séculos atrás e é vastamente discutida em disciplinas como Política, Filosofia, Ética... e em Saúde, através da bioética (Convention for the Protection of Human Rights and Dignity of the Human Being with regard to the Application of Biology and Medicine: Convention on Human Rights and Biomedicine, 1997).  

Especialmente por o paciente, em comparação com o profissional de saúde, estar numa situação de desequilíbrio de poder de decisão (doente, debilitado, acamado...), é importante defender/proteger os seus direitos, entre os quais se inclui a sua dignidade.


Nunca deixe de lutar pela sua dignidade (ou do seu familiar), seja em que situação.



Recomendações de leitura/ contacto:
Grupo de Trabalho de Fisioterapia em Cuidados Continuados e Paliativos
Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos

 

(Texto recuperado de Outubro 2017)

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